Pedro Bermonte coordenação das competições e das selecções
“Temos de equilibrar as competições e formar mais e melhores treinadores”
A época de 2026/27 na Associação de Futebol de Ponta Delgada começa no próximo fim de semana. Os calendários estão definidos. Os regulamentos prontos.
O número de equipas dos escalões de formação de Sub-15, de Sub-17 e de Sub-19 é superior em uma ao da época passada. As provas de ilha não diferem e as regionais estão marcadas.
Pedro Bermonte, 47 anos de idade, tem a responsabilidade da coordenação das competições e das selecções. A oportunidade para a análise a alguns dos momentos altos da época passada das categorias base, do que tem em mente para ajudar a melhorar a qualidade do futebol.
É a primeira parte de uma longa entrevista com o director técnico, no cargo há dois anos.
Qual o benefício para o progresso do futebol juvenil da ilha de São Miguel com a recente participação no Triangle Cup Bermuda com uma selecção de sub 17?
“Todas as participações dos nossos jovens atletas em torneios nacionais ou internacionais são benéficas, pela experiência que proporciona aos mesmos, dentro e fora do campo.”
- As três vitórias obtidas, a última, que valeu o terceiro lugar, com goleada perante uma equipa com quem a selecção micaelense havia perdido na primeira fase por 2-1, o empate e a derrota, foram perante equipas de nível equiparado ao nosso ou ligeiramente inferior, numa analogia prática dos resultados?
“Defrontamos equipas com elevado índice físico, mais habituadas ao clima e com mais soluções (levamos apenas 18 atletas), mas que estavam ao nosso alcance no capítulo táctico e técnico. Tivemos dificuldades na adaptação no primeiro dia e depois também sentimos dificuldades devido ao elevado número de jogos realizados, com a condicionante de ser em relva natural (campo mais lento). Foi um desafio diferente e uma excelente oportunidade para os nossos jovens crescerem de demonstrarem o seu potencial. Seria fantástico repetir a participação, com a experiência adquirida desta participação.”
- A participação da selecção de Sub-13 no torneio Novos Talentos, realizado em Junho na Benedita, promovido pela Associação de Futebol de Leiria, foi o primeiro passo para a transformação, porque temos de olhar para o progresso e não para a estagnação advinda dos torneios Interassociações açorianas?
“Sim. O objectivo é procurar outra competitividade e convivência com outras realidades, essenciais para o crescimento dos nossos jovens atletas.”
- A selecção de Sub-13 perdeu com as selecções de Leiria (1-2), de Santarém (0-3) e de Portalegre (0-2). Sendo equipas que devem estar equiparadas às nossas, as derrotas significam que ainda estamos longe do nível apresentado pelas formações adversárias?
“Demograficamente Leiria e Santarém estão bem acima de nós. A título de exemplo Leiria tem cerca de 10 500 atletas federados enquanto nós andamos pelos 4 000. Santarém tem 75 clubes filiados enquanto nós temos 40. Já Portalegre tem uma realidade mais próxima da nossa, pese embora geograficamente tenha a vantagem de poder competir com maior regularidade contra Associações de maior dimensão.
Quanto às derrotas, mostraram que podemos ser competitivos com estas selecções, mas também mostraram que os erros, neste patamar competitivo, pagam-se caro. Mas o principal objectivo foi preparar o torneio Lopes da Silva e observar os nossos atletas na forma como reagem à adversidade, a sua capacidade de resiliência, adaptação, treinabilidade, etc. bem como o seu comportamento fora de campo. São predicados que consideramos cada vez mais importantes no nosso processo de selecção”.
“Confrontados com níveis competitivos superiores”
- É para repetir estas participações e até reforçando-as porque são com jogos com equipas mais fortes ou de nível idêntico que se progride?
“O objectivo é manter estas participações e encontrar soluções para as nossas selecções serem confrontadas com níveis competitivos superiores, que permitam aos nossos jovens atletas maiores possibilidades de evolução e aprendizagem.”
- Como se combate o desnível para haver equilíbrio com associações como as do interior do Continente?
“Com mais competição. Obviamente que aqui o trabalho dos clubes também é fundamental e a participação em torneios nacionais e internacionais dos nossos atletas pelas suas equipas também é uma clara mais valia no seu processo de formação. Penso que os últimos resultados do “Lopes da Silva” têm sido indicadores de uma evolução e de uma maior preparação para essas competições.
Gostaria de mencionar que esta época conseguimos, de forma inédita, qualificar todas as nossas selecções de futebol, que participaram em torneios nacionais, para as Ligas de Ouro. Nos seniores, no UEFA Regiões, a selecção conseguiu um brilhante terceiro lugar num torneio com 22 Associações.”
- Nos escalões de base, a qualidade das gerações contribuiu para a obtenção de melhores e de piores resultados. Nas últimas 12 edições do torneio Lopes da Silva para os Sub-14, somente por duas vezes a AFPD classificou-se abaixo do 12.º lugar. Vem confirmar que, efectivamente, ainda estamos longe?
“Demograficamente, ao nível de clubes e atletas federados, somos a décima quinta Associação do país (em 22) pelo que todos os resultados que nos coloquem acima desse patamar são resultados positivos. O “ranking” pré-determinado desse torneio torna difícil a obtenção de resultados melhores porque enfrentamos sempre adversários de “ranking” superior. No passado havia uma maior aleatoriedade, que permitia amiúde alcançar alguns resultados diferentes. O nosso nível será tentarmos, qualificarmo-nos para a Liga de Ouro ou lutar pela conquista da Prata no “Lopes da Silva”.
“Importante aceitar as regras do jogo”
- Isso significa que, para além da fragilidade nas competições locais, pelas acentuadas diferenças de valores, reflectidas nos resultados desnivelados, os trabalhos das equipas técnicas ainda não atingiram o nível que se deseja na maioria das equipas da formação?
“A dificuldade demográfica e competitiva dificilmente será ultrapassada na sua plenitude. Acho que é importante aceitar “as regras do jogo” e não andar constantemente em lamentos e em retornos ao passado de uma realidade que já não volta. É preciso encontrar soluções. Equilibrar competições, limitar transferências (dentro do que é possível), formar mais e melhores treinadores e acima de tudo criar um discurso positivo e mentalidade positiva e construtiva em redor dos nossos jovens atletas, que potencie o seu crescimento e bem-estar.”
- Reconheço estar numa posição em que tem de medir as palavras. No entanto, pergunto: que interesse traz a quem pretende progredir defrontar selecções de Angra e da Horta, em que, sendo raríssimas as excepções, Ponta Delgada ganha? Que evolução viu nos torneios em que participou?
“Esta tem sido uma das minhas lutas. Se por um lado compreendemos que vivemos num arquipélago e que deverá haver um plano desportivo equitativo para todos, por outro lado penso que temos de respeitar a individualidade e a realidade de cada uma destas Associações no sentido de termos um plano equilibrado que permita cada uma crescer dentro do seu contexto. Penso que temos caminhado nesse sentido.”
- Não está na hora de dar uma volta nestes torneios de todos os escalões porque não são um investimento, mas sim um entretenimento?
“Alguns torneios terão de ser mantidos pelo que referi anteriormente, mas estamos a encontrar soluções diferentes, nomeadamente com a participação em torneios nacionais e internacionais e também participar com selecções de idade inferior quando o contexto competitivo for mais baixo. Seja como for, nas últimos dez épocas desportivas, esta foi a primeira vez que Ponta Delgada conseguiu vencer todos os torneios regionais em ambas as modalidades (futsal e futebol).”
“Goleadas não são boas”
- E o torneio regional de Sub-12, que interesse traz para crianças que sofrem goleadas das selecções mais fortes?
“Goleadas não são boas para quem ganha nem para quem perde, mas desde sempre fizeram, fazem e farão parte deste desporto. O importante é procurar soluções para as mitigar. Este ano já conseguimos introduzir mais uma selecção de São Miguel nos sub12, que aporta mais qualidade e também permite maior recrutamento das nossas gerações e aumentar a base da pirâmide. Vamos procurar continuar a encontrar soluções para a nossa realidade, sem nunca esquecer que também fazemos parte de um arquipélago e de um plano desportivo que terá de ser inclusivo.”
- Implementou na época passada a proibição de na mesma prova competirem equipas A e B dos mesmos clubes. É para prosseguir?
“Fizemo-lo no futebol de 11, nomeadamente nos campeonatos. Penso que é uma medida importante para mitigar a concentração de atletas de determinada geração num só clube e também para favorecer a verdade desportiva.”
- No entanto, na Taça de São Miguel reunindo equipas de Sub-14 e de Sub-15, os clubes com formações em ambas as categorias se defrontaram. Porque aconteceu?
“Estreamos o campeonato de Sub-14, que julgamos importante por forma a dar mais tempo de jogo aos atletas de primeiro ano. Entendemos que seria interessante juntar, na taça, depois com os Sub-15 (mesmo escalão). Este ano vamos fazê-lo novamente, mas de forma mais cuidada, com uma interação entre os escalões de Sub-15 com Sub-14 e com Sub-14 e Sub-13 baseada no rendimento desportivo. Nesse sentido poderá surgir pontualmente uma equipa Sub-14 a competir com uma Sub-15 ou uma Sub-13 a competir com uma Sub-14 de um mesmo clube, dependendo dos resultados desportivos de ambas as equipas.”
José Silva-CA-MN

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