A Vila Baleeira recebe Comemorações do 9º aniversário do portal Adiaspora.com
Nos dias 23 e 24 de Outubro último, com o intuito de celebrar nove anos de actividade na senda da divulgação e promoção da cultura lusa, o projecto virtual luso-canadiano, Adiaspora.com, levou a efeito, nas Lajes do Pico, Açores, um seminário subordinado ao tema “Confluências da Alma Lusa” .
NOÇÃO DO TEMPO
Foi o título escolhido por mim, para introdução desta palestra, no 9º. Aniversário do portal ''Adiaspora.com'' - Manuel Martins.
Lajes do Pico, a ''Vila mais antiga que até algum tempo atrás, era conhecida por ''Vila Cultura''.
Hoje, ''Vila Baleeira'', turísticamente falando!
No despertar das brumas, aqui a venho encontrar, jovem, esbelta e mais linda, de quando por aqui, eu andei.
- Sou parte desse tempo, desse passado, quando esta vila vivia a euforia da caça à baleia. Conheci muitos desses baleeiros, acompanhei as suas vivências e, embrenhei-me nas suas histórias.
- Tenho conhecimento que está colocado lá fora no Caneiro um monumento com alguns nomes. Os nomes que eu vou citar aqui, são os que eu conheci de perto, que poderam não estar lá resgistados.
Por exemplo:
O oficial mestre, João Abrão, Francisco Pé-leve, Domingos Inteiro, Manuel da Emília, João Luís, Manuel Silveira Carvão, José Alves, António Ritinha, António Vieira, Manuel José Machado, José Pereira Bagaço, Albertino José Machado, João Bagaço, Francisco Bruques, Tiauguinha Francisco Machado ´´Barbeiro´´, Manuel Moniz Barreto, Manuel Caiador, João Monteiro, Marino Machado, Manuel Macêdo Portugal, José Severa, Francisco Bento, Velmano Carvão, Manuel Palim, Manuel Belém, Francisco Adelino e Manuel Ávila Zézinho.
Mas há muitos outros que balearam antes e depois destes que menciono, que contribuiram com o seu suor e o seu sangue, para o nome histórico que esta vila hoje, ostenta.
‘’Confluências da Alma Lusa’’, foi o título escolhido por o director de Adiaspora.com para celebrar nove anos de divulgação da lusitanidade no mundo da diaspora. Hoje, estamos aqui nesta avoenga ‘’Vila Baleeira’’, a celebrar mais um aniversário, o nono desta jornada.
Minhas senhoras e meus senhores!
- Antes de me alongar quero comprimentar todos os presentes e agradecer ao sr. José Ilídio Ferreira dignissimo presidente de Adiaspora.com, por ter-me convidado a participar nesta data efeméride.
- Vou falar-vos das recordações que guardo, quando a caça da baleia estava no seu auge, porque andei por aqui nesses tempos quando era menino e moço.
Guardo ainda o cheiro do azeite (óleo), quando derretiam o toucinho daqueles monstros marinhos, lá fora no Caneiro, assim como os odores dos resídios que o sol lentamente ia deteoriando. Tudo isto antes da (SIBIL), a fábrica de aproveitamento dos derivados da baleia se instalar ali para os lados da Ribeira do Meio, no portinho. Este cheiro de que vos falo, continua ainda impregnado na minha memória.
Nasci ali ao lado na freguesia de São João, onde de lá parti á mais de 4 décadas. A freguesia com o santo do mesmo nome, ainda lá continua entre os cabeços da minha infância.
As vivências de agora são diferentes das do meu tempo. Com a transformação da freguesia a arquiologia foi desaparecendo o mesmo está acontecendo, ao burgo desta vila. Só quem está ausente como eu, que não acompanhou o progresso, é que vê, a diferença.
Por exemplo, o lugar do Caneiro onde arrastavam as baleias para a rampa para serem esquartejadas, está tudo limpo e arrumado, na orla baixa junto ao mar de onde as tempestades assoladas por vento sul, convidavam o mar a galgar a terra, está agora protegida com um molhe de defesa. Os baixios da zona da carreira que dificultavam a entrada das embarcações em dias de mau tempo, foram em parte iliminados. Cá dentro na lagoa nasceu uma marina que veio embelezar aquele espaço de águas tranquilas, acontecendo o mesmo às casas dos botes que depois de restauradas instalaram um ‘’Museu’’ dedicado a estes heróis do mar de que vos falo, os ‘’Baleeiros’’.
As ruas estão revestidas com asfalto e ladeadas de lojas com um comércio moderno, até o castelo, ou forte de Santa Catarina, lá fora à entrada da vila, também foi recuperado.

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Os lajenses estão de parabéns!...
Estou á quase 50 anos ausente destas paragens. Esta palestra é um despertar no tempo, o meu português é fraco, a 4ª classe de há 70 anos. Aliás, afastado da língua materna, numa terra estrangeira há tantos anos, tive de lutar comigo próprio, para a não esquecer o que ninguém avaliaria quanto custa a não ser, que tenha passado por o mesmo. Neste mar aberto sobrevivi lendo tudo o que era válido e foi escrevendo ao ritimo do meu sentir.
- Não tive a sorte desta nova geração, mormente os que nasceram depois de 1974. A revolução dos cravos de 25 de Abril, deu a todos os portugueses a oportunidade de estudarem, mesmo os sem recursos. No meu tempo poucas pessoas iam estudar, os recursos da terra mal chegavam para o sustento das familias, para alguns eram bastante escassos, porque sem possuiram terras de cultivo não podiam obter forma de subsistência para ganharam o seu pão, iam trabalhando dia a dia para os propriétarios mais abastados de sol a sol e sem requesitos. Muito embora eu tivesse vontade para os estudos os meus pais não me puderam dar, fiquei agarrado a quanto esta terra me podia oferecer, tal como a outros da minha geração.
Os caminhos desta ilha, vão todos dar ao mar, estrada aberta que os baleeiros nela se aventuraram e lá iam mar fora caçar esses monstros marinhos, a baleia. Para outros era a tentação da aventura, e partiram para longe à procura de uma melhor forma de substência. Uns voltaram, mas outros, por lá ficaram perdidos para sempre na distância.
- Eu escolhi essa aventura, não sabendo o que me esperava para além do horizonte. Parti levando o coração cheio de saudades da terra, onde pela força imperiosa do destino, tive que deixar mulher e filho. Aconteceu numa manhã do mês de Março do ano de 1966, uma arragem fresca soprava direito do sopé da ‘’montanha’’ para a baía desta vila. O paquête ‘’Lima’’ da Empresa Insulana de Navegação tinha deitado âncora ali em frente à Ribeira do Meio a uma milha da costa, aproximadamente. Acciono os retroactivos da memória e recordo que tinha pouco mais ou menos 5 anos, quando o vi pela primeira vez. Este barco fazia parte de mim, agora, está prestes a terminar as suas viagens entre ilhas.
O povo tinha apelidado as suas chegadas de dia de ‘’São Vapôr’’. Juntava-se muita gente, uns para despachar mercadorias, outros para vêr quem chegava e quem partia.
Naquele tempo, a chegada deste vapôr era um dia de festa. Encontravam-se amigos que se espalhavam por toda a vila, mormente pelos estabelicimentos do sr. Edmundo Ávila e do sr. José Rocha, o mais próximo da casa dos botes, e por isso o mais acessivél para os que não queriam afastar-se muito da área dos embarques e de desembarques. Notava que o botequim do sr. José Rocha era o lugar escolhido para quem vinha das freguesias para comer um pedaço de pão com queijo de São Jorge, ou uma lata de sardinhas, ou um outro petisco de ocasião fisgado por algum baleeiro amigo na baixa-mar. Outros, preferiam o Café do sr. Edmundo Ávila onde o cheiro intenso do café puro atraía as pessoas mais intelectuais e com gostos definidos. Dizia-se que o Café do sr. Edmundo Ávila era o mais frequentado por a burguesia desta vila, ainda outros ficavam a olhar o vapôr e as lanchas ‘’Lourdes’’ e ‘’Herminia’’ num vai-vém constante rebocando batelões atrelados levando e trazendo passageiros e mercadorias.
Terminado o serviço de bordo, o vapôr apitou produzindo um som estrepitoso de um dó menor prolongado. Era o som de todos os navios daquele tempo, ainda movidos a carvão, a chamar os passageiros para o embarque.

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Tinha chegado a minha hora.
Depois do embarque, o vapor ‘’Lima’’ fez-se ao largo, saudando com outros apitos convencionais, esta ilha, que ele vinha servindo há muitos anos. Velhinho, mas orgulhoso da missão cumprida, lá prosseguio viagem, atarracado de peso e adornado para bombordo com sua marcha rouçeira, pouco a pouco, foi-se distânciando desta ilha montanha o ‘’Pico’’ dos Açores.
Escalou a ilha Terceira, cidade de Angra e chegou ao amanhacer a Ponta Delgada, ilha de São Miguel.
Um carro de aluguer me transportou a uma pastagem de gado bovino, que era conhecido no tempo de (aéro-vacas), o único aeroporto da ilha de São Miguel.
Como os tempos mudaram! Recordar é viver! Já nos diziam os nossos antepassados...
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Vou continuar relatando esta enovidavél história.Uma pequena avionete de 6 passageiros nos esperava. Era dos primeiros pintos da Sata de hoje. Não havia torre de control, um saco comprido afunilado, indicava a posição do vento e com o motor em marcha sobre um terreno virgem não terraplanado como um gafanhoto aos saltos, levantamos vôo e pouco tempo depois aterrava-mos em Santa Maria, ao tempo julgo aeroporto internacional.
Foi daqui que um avião da (Canadian Pacific) acionado por 4 hélices me levou até ao Canadá ‘’aeroporto internacional de Toronto’’.
O meu primeiro contacto com o solo canadiano, foi o frio de uma primavera sem flores, mais arrepiante do que eu estava habituado aqui na ilha.
Algum tempo depois da minha chegada notei que não me identificava com os usos e costumes da minha nova terra adoptiva. Precissava encontrar um meio de me ligar á pequena comunidade portuguesa daquele tempo, mormente os imigrantes oriundos da ilha do Pico, Faial, Flores e Corvo, eram estas ilhas que formavam no tempo o ‘’distrito da Horta’’. – Não foi fácil mas a minha persistência me levou a um encontro dum ex-tipografo do antigo (jornal o Telégrafo da Horta) que me comunicou que o padre Cunha da igreja de Sta. Maria da cidade de Toronto queria organizar os distritos de Portugal continental e ilhas num desfile de carros alegóricos para comemorar o dia de Camões. Aliás o governo de Salazar tinha proibido tais manifestações em Portugal.
– Eu ofereci-me e com o meu amigo Manuel Rebelo o ex-tipografo de que vos falei apresentei os carros alegóricos referentes ao distrito da Horta de Junho de 1966 a Junho de 1970. Por vária razões de interferência da PIDE e da segurança do padre Cunha, termina-mos estes desfiles de carros alegóricos em 1970.
Os 4 anos que andei envolvido com os carros alegóricos, conheci quase todos os meus conterrâneos portugueses oriundos das ilhas dos Açores, mormente os do meu distrito que afinal era os que eu queria agrupar para criar um clube social e, assim aconteceu a 1 de Fevereiro de 1971. Fundei o clube Amor da Pátria com 179 sócios todos eles filhos do então distrito da Horta.
Em 1972 ajudei a fundar o ‘’Portuguese Canadian Integration Movement’’ e a 1ª Irmandade independente do Divino Espírito Santo de Mississauga, para poder integrar na sociedade canadiana os novos imigrantes e prestar-lhe ajuda, quer no campo de empregos, saúde, assuntos familiares e de imigração etc, etc.
Envolvi-me em outras associações e ainda continuo, como no Sport Clube Lusitânia e Associação Cultural 25 de Abril. Todas estas organizações estão sedeadas na cidade de Toronto e Mississauga no Canadá.
Resumindo:
Este convívio de hoje é o quinhão de um imigrante que se abriu para os seus conterrâneos, relatando as suas recordações de um tempo longínquo sem preocupações de escola literária, mas por amor á terra onde nasceu divulgou a nossa cultura, os nossos costumes e tradições em terras do Norte da América sem ajuda de governos.
‘’Confluências da Alma Lusa’’ é o envolvimento que nós imigrantes temos dado a conhecer a outros povos. Os nossos costumes, as nossas tradições e a nossa cultura.
Como estou prestes a terminar e o assunto desta palestra era as baleias, os baleeiros e, esta vila que ostenta o nome de todos eles.
- Há apenas uma memória magoada que guardo das minhas façanhas dos homens que balearam aqui neste porto. Esta memória está relacionada com o acidente da fatídica manhã do dia 15 de Agosto de 1948, quando os botes desta vila precediam á caça da baleia no alto-mar.
Tinha chegado á poucos dias do serviço militar e, estava nas Lajes para tratar de assuntos no Registo Civil lá em cima no convento, quando me encontrei com o carismático ‘’Tibita’’ que vinha da vigia e me contou que o bote do mestre Manuel Moniz Barreto, tinha perdido o trancador Francisco Burques, borda fora, entrelaçado na linha da baleia, mas que o corpo já tinha sido recuperado porque a baleia tinha sido retrancada pelo bote do mestre esperiente ‘’Nossa Senhora de Fátima’’ e os seus marinheiros, sr. Albertino José Machado e seu irmão, Marino, ao recolherem as linhas depois da baleia morta encontrando o corpo do malogrado entrelaçado nelas.
O sr. Albertino com 87 anos e seu irmão Marino José Machado com 83 estão ainda vivos e residem na cidade de Toronto no Canadá.
Em homenagem a todos estes homens do mar, que com o seu suor, o seu sangue e alguns com as suas vidas, deram o seu nome que ficou p´rá história, como cartaz turistico desta ‘’Vila’’...
Vou declamar 8 poemas do saudoso escritor e poeta ‘’ Dias de Melo’’ do seu primeiro livro,
‘’Toadas do Mar e da Terra’’, (Canção Baleeira).
Baleia! Baleia á vista!
Baleia! Ouvimos gritar.
É na baía da vila,
longe no prego do mar!
Quando o foguete estraleja,
lá em riba, na vigia,
nos olhos dos Baleeiros
há chamas de valentia.
- Ó mulher! Dá-me a comida!
Vá, que a lancha já começa
a roncar! Dá-me esse pão,
mulher! Depressa! depressa!
E o Baleiro caminha:
parece um louco, um leão,
a quem tivessem quebrado
os ferros duma prisão.
Vamos também ver partir,
os botes para a baleia.
Hoje cessam os trabalhos
do povo da minha aldeia.
Todos somos baleeiros:
tanto os que vão balear,
como os que ficam, em terra,
de olhos pregados no mar.
E os Baleeiros lá vão...
- Botes de velas erguidas.
Aves de sonho e aventura,
por sobre as ondas perdidas.
- Lá vão!... lá vão... no horizonte!...
Ai! Quantos! Quantos largaram
do porto... Quantos! E nunca
mais... ai! Nunca mais!... voltaram.
Por: Manuel Martins.