João Henriques: “Mantemos o ritmo semanal e as rotinas”
Em entrevista concedida ao Site da Liga Portugal, diz ainda, entre outras coisas, que “acompanha o trabalho do seu plantel através do controlo do treino”. Mesmo assim, “nesta situação, o tempo livre não é muito”, revela.
Natural de Tomar trabalhou em emblemas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos até aterrar no CD Fátima. Iniciou a época de 2017-18 no Leixões SC, da LigaPro, e terminou-a ao serviço do FC P. Ferreira, da Liga NOS. Cumprindo agora segunda temporada consecutiva no leme do Santa Clara, João Henriques já deixou o nome na história da equipa dos Açores, quando, na época transata, o conjunto açoriano logrou o melhor registo de pontuação e de golos marcados de sempre do clube, na principal competição do futebol português.
Com a pausa nas competições profissionais, o técnico de 47 anos aplaude o comportamento responsável da sociedade em geral, acreditando que, “mais tarde ou mais cedo, arranjaremos solução” para o problema, defendendo que é fundamental que “as pessoas tenham consciência de que nunca deixaremos de ter risco”.
Qual a sua opinião relativamente à situação da pandemia do COVID-19, tanto a nível nacional, como no que toca ao mundo do desporto?
“É um vírus desconhecido. Até haver a cura ou uma vacina contra o vírus temos todos de ser prudentes, ajudando aqueles que estão na linha da frente. Sabemos também que este vírus já está a ter um impacto terrível na economia mundial. Temos de ponderar bem aquilo que é a paragem da economia e o retorno a normalidade. Isto deixa-me muito preocupado. Tenho confiança que relativamente ao vírus, a responsabilidade da sociedade está a dar frutos e, mais cedo ou mais tarde, arranjaremos solução. Já as repercussões na economia são muito mais graves. A criminalidade, no futuro, poderá aumentar, fruto do desespero das pessoas não terem emprego, de terem incapacidade para sustentar as suas famílias. O desemprego e as falências das empresas também poderão acontecer e isto trará consequências graves para a nossa sociedade. O futebol não foge à regra. Isto vai sempre prejudicar todos, uns mais do que outros. O campeonato terá de regressar mais cedo ou mais tarde porque só assim a indústria do futebol poderá minimizar os estragos provocados pela pandemia. E isto é uma certeza que eu tenho. É fundamental que as pessoas tenham consciência de que nunca deixaremos de ter risco”.
Como é que um treinador de futebol adapta e acompanha o trabalho do seu plantel?
“No futebol, um treinador acompanha o trabalho do seu plantel através do controlo do treino. Estamos a manter o regime semanal. Mantemos as rotinas. Através de uma plataforma, estamos todos juntos em videoconferência e ministramos a sessão de treino. Antes de cada um, os jogadores têm de responder a um questionário e enviar para a equipa técnica até uma determinada hora. Depois iniciamos a sessão e, no final, caso aquele seja o único treino do dia, os jogadores preenchem um questionário relativo à perceção subjetiva de esforço, para nós sabermos como é que eles se sentiram em relação à intensidade dos treinos. Se for uma sessão bidiária, os jogadores têm de nos enviar uma tarefa, através de uma aplicação onde sabemos quais são as distâncias percorridas, assim como tempo de exercício e a intensidade em que foi efetuado. O controlo é feito através destas aplicações e plataformas e vamos controlando as sessões de treino em conjunto com as questões da nutrição. Neste sentido, foi também enviado um plano alimentar que os atletas têm cumprido, a que se junta também uma pesagem diária aos jogadores. São esses os dados que chegam até nós e que nos permitem preparar as sessões de treino seguintes. Vamos variando as sessões de treino, sendo que há treinos mais direcionados para a prevenção de lesões, outros para a trabalho de força, outros para o trabalho de resistência e outros para a força explosiva. Fazemos outro tipo de treinos onde privilegiamos a velocidade, a mudança de direção e a agilidade. E, por último, temos sessões em que utilizamos os ciclos ergómetros que cada um dos nossos atletas possui em sua casa. No meio disto, ainda conseguimos ter convidados que vão fazer uma sessão diferente para os jogadores sentirem alguma diversidade em termos mentais”.
Além do trabalho diário, como é que ocupa o seu tempo livre?
“Nesta situação, o tempo livre não é muito, mas mesmo assim há sempre um livro para ler, um ou outro filme que nós conseguimos ver e algumas séries também. Mas, sobretudo, muitas informações relativamente à nossa questão profissional. Sempre que aparece uma série relacionada com o nosso dia-a-dia, suscita sempre alguma curiosidade”.
Que atividades sugere aos portugueses para se entreterem por casa?
“Fazer algum exercício físico regular. Se diariamente se fizer períodos curtos, mas com alguma frequência, é importante. Devemos manter a nossa mente ocupada, não só com notícias. Tudo o tempo restante, ocupar com jogos em família, atividades na cozinha e atividades que possam exercitar a mente, como leitura, ouvir música ou ver séries. Tudo isso são atividades importantes de se fazerem e dá para ocupar o dia inteiro. É importante manter as rotinas para que não se sofra tanto no stress e depois no retorno à atividade normal”.
O que é que sente mais falta e qual será a primeira coisa que lhe vem à cabeça fazer quando terminar o período de quarentena?
“A competição. O treino. A adrenalina de ter competição todas as semanas. O treino diário e o desafio que é. Fora do âmbito profissional, tenho mais necessidade de poder fazer livremente aquilo que gosto, como dar um passeio, almoçar fora ou estar à beira-mar”.
Por fim, quer deixar alguma mensagem ao país?
“Vamos respeitar aquilo que nos é pedido. Se respeitarmos as indicações que nos são dadas, mais depressa voltaremos à nossa vida ativa. Só conseguimos fazer parte dessa saúde publica se colaborarmos com quem está na linha da frente, que está a sacrificar a sua saúde e a sua vida por todos. Vamos colaborar dessa forma. Para os amantes do futebol, a exigência será a mesma. Quanto melhor cumprimos com essas indicações, mais depressa vamos voltar a ter futebol e a ver jogos. Vamos colaborar para que isso aconteça o mais depressa possível”.
SAD do Santa Clara afasta possibilidade de reduzir salários
A Sociedade Anónima Desportiva (SAD) do Clube Desportivo Santa Clara - representante açoriano na alta-roda do futebol luso - decidiu alargar a todos os colaboradores a medida, já anunciada para o plantel, de não reduzir salários.
Segundo adianta o diário desportivo "A Bola", esta posição não será revertida, uma vez que a Liga de Clubes pretende levar o campeonato até ao fim, embora o quadro de pandemia da Covid-19 deixe tudo em aberto.
Recorde-se, a propósito, que alguns clubes da esfera do futebol profissional em Portugal já começaram a tomar medidas. Belenenses, Desportivo de Chaves e Leixões estão em lay-off, ao passo que SL Benfica, Sporting CP e Sporting de Braga avançaram para férias. A redução de salários, pelo menos enquanto durar o quadro actual, é uma forte possibilidade.
CA/MN