A
árvore deixa cair suas flores sobre o rio em profunda gratidão,
e
o rio segue em frente. O vento chega, dança ao redor da árvore e segue em
frente. E a árvore empresta o seu perfume ao vento... Se a humanidade
crescesse, amadurecesse, essa seria a maneira de amar.
Osho
Existe um provérbio popular que refere que só percebemos
o valor da água depois que a fonte seca. Mas, A Mulher de Água, de
Conceição Maciel, orvalha-nos a alma e faz de nós sonho transformado em
golfinho que beija a foz de uma ribeira que abandonou a ilha após trilhar a sua
face e salpicar seus olhos.
Água azul do céu, do infinito, da tranquilidade, da
serenidade e da harmonia em contraste com a frieza, a monotonia e a depressão
que o caos lança no leito real de uma mulher que se ajoelha no basalto
mergulhado e lança seus braços ao céu do infinito, como quem grita pelo tempo
de renascer. Essa mulher que não receia mitigar a sede que a devora...
Conceição Maciel, escritora de sensibilidade, de uma poesia
simples que nos faz viajar e divagar pela nostalgia, pelo sentimento e pelos
mistérios das suas ilhas, desta vez banhou a mulher enigmática pela verdura da
prosa.
E nessa conversa entre o seu pensamento, o seu sonho e a
sua criatividade, Conceição Maciel não esqueceu uma das maiores forças das
ilhas que é a água, fantasia que abraça a quimera de uma mulher e a simbólica
de um golfinho que do azul do mar acena para a mãe natureza que descansa nas
ilhas.
Como escreveu Cecília Meireles (1901-1964), um poeta é
sempre irmão do vento e da água, e a autora de A Mulher de Água,
lançou nestas folhas, sem sombras ou limites, como a felicidade que relata no seu
conto de fantasia e contaminado pela realidade, uma hasta de triunfo onde
sublinha a importância do baptismo como esperança de vida, tatuando na sua
mensagem que não há ilha sem água nem ilha sem vida, sem nascimento.
E todo o nascimento merece um crescimento, e Conceição
Maciel fez, neste livro, o tempo mergulhar de mãos dadas com o pensamento de
uma mulher que é de Água e que na mesma ribeira onde saciou sua sede, também
banhou, pela primeira vez, sua filha – Ribeira da Mulher.
E o seu rebento, como nascente que chora em direcção ao
mar, não escondeu o seu crescimento, e não conseguindo o mesmo trilho para sua
filha, a Mulher de Água foi beijando lombas e vales, vales e lombas,
precipitando-se, alongando-se, afundando-se, elevando-se, num sobe e desce como
na vida.
A esta Mulher bastava estender o braço para tocar o
infinito e as estrelas, mas o céu dos olhos não é só feito de estrelas. Também
tem as suas nuvens, que podem ser claras ou escuras, lembrando a prece de
Fernando Pessoa (1888-1935): Senhor! Torna-me puro como a água e alto como o
céu.
E como não há reino, mesmo que seja das águas, sem tortura, esta Mulher encheu o mar na concha
da sua mão, e dela se ergueu uma antiga caravela, de onde saiu um homem que ao
pisar a ilha plantou a sua cruz...
Conceição Maciel lançou nas páginas deste livro, o vento da
imaginação que da concha da realidade fez ondear uma Mulher aguada de mensagem
que nos permite navegar pelas metáforas que nos fazem inundar a imaginação.
A autora não nega o basalto que lhe corre nas veias, e de
pés bem vincados nas suas ilhas, com destaque para Lajes do Pico e Nordeste,
descreve este Mulher como Água límpida que reflecte o verde da esperança, mas
que ao mesmo tempo faz rebolar pedras e entrar em conflito com as margens que
lhe limitam a esperança.
Este conto, mensagem, bem molhado de sensibilidade, é
instintivo de alguém que no leito da solidão, chora ideias nas folhas brancas,
porque, como proferiu Victor Hugo (1802-1885), são singulares as solidões da
água. São o tumulto e o silêncio.
Conceição Maciel é inspiração, mulher fortaleza, sensível
de coração humanitário, que na água da sua vida sentiu gota a gota que foi
brotando da sua nascente e que foi bailando feito ribeira pela verdura das
ilhas, umas vezes beijando outras empurrando a luta do basalto que constitui a
sua raiz vulcânica.
Escrever de alguém, com a sensibilidade humana e literária,
de Conceição Maciel, além de ser uma honra, é um desafio constante, porque a
autora do Pico e de São Miguel, tem no seu sangue o Azul dos Açores, o mesmo
Azul que pinta a água da vida, a água que faz a ilha de São Miguel chorar,
tendo seus olhos nas nascente e suas lágrimas derramadas pelas ribeiras. E,
este contraste, entre a força do vulcão e a sensibilidade da água que sussurra
na montanha, que por vezes, também se revolta e grita cuspindo penedos, fez
Conceição Maciel mostrar a força da Mulher figurada na Água que também é
símbolo de vida, reflectindo a fragilidade da mesma que também consegue
destruir uma rocha.
A pureza da ribeira de palavras de Conceição Maciel é de
tal forma transparente que nos faz confundir a ansiedade da realidade com o
oceano da ficção.
Mas, conhecendo a sua luta de vida, de professora, de
esposa e de mãe, tenho-a como inspiração de alguém que soube, essencialmente,
ser Mulher, deixando as águas passar enquanto estas lhe foram humedecendo a
vida, porque, como disse Santo Agostinho, enquanto houver vontade de lutar
haverá esperança de vencer...
Adélio Amaro
Leiria, 14 de Março de 2016
Dia de Santo António de Cartago (?-1549)