domingo, 28 de maio de 2017

Nuno Quental (U. Micaelense) despediu-se dos relvados

“Foi uma sensação agridoce”
Nuno Quental despediu-se por duas vezes de uma competição federada que insere outras exigências.
Fê-lo há um ano, após sagrar-se campeão de S. Miguel pelo União Micaelense e após ter completado 40 anos de idade.
Porém, em Novembro do ano passado, não ficou insensível ao apelo dos dirigentes do clube de Ponta Delgada para dar uma ajuda na equipa de futebol. A experiência, a forma séria como treina e joga, o modo como lida com todos, eram mais valias para um plantel com alguns jovens.
No último jogo do Campeonato de Futebol dos Açores, a 14 de Maio, Nuno Quental disse de novo adeus aos campos de futebol como atleta federado. Uma despedida mais marcante, porque saiu antes do final da partida, permitindo que os companheiros e os atletas do Desportivo de S. Roque fizessem alas e o aplaudissem insistentemente, além das pessoas que estavam no campo “Jácome Correia”. Um recinto mítico para muitos atletas. Para Nuno Quental também.
Fica um percurso recheado de êxitos individuais e colectivos, um percurso de um grande desportista e de um grande homem, disciplinado, apaziguador, conselheiro. Foram cerca de 30 anos divididos pelo Santa Clara, onde começou a ser jogador, pelo Operário (6 anos), pelo Santo António (4 anos), pelo Capelense (5 anos) e pelo União Micaelense (6 anos).
Por isso, falamos com Quental para saber se haveria ou não mais um regresso ou se, aos 41 anos de idade, era mesmo a despedida definitiva.
A despedida no último jogo do campeonato foi mesmo despedida como jogador de futebol federado?
Sim, terá mesmo de ser porque foi o que ficou acordado com a família, à qual agradeço, mais uma vez, por me terem dado o aval e terem apoiado o meu regresso. Certo é que não irei jogar mais a este nível. A disponibilidade também vai ser muito reduzida.
O que sentiu quando lhe fizeram alas, incluindo jogadores do Desportivo de S. Roque, onde estava outros dos veteranos do campeonato, o Luís Soares e o Pedro Martins?
Foi um momento marcante com a particularidade de estarem presentes, no mesmo jogo, como adversários, entre outros, dois colegas e amigos “veteranos”, o Luís e o Pedro. Penso que foi o jogo onde esteve o maior número de atletas veteranos.
A sensação foi “agridoce”: “Agrí”, por saber que nunca mais irei jogar a este nível e estar envolvido nas dinâmicas de uma equipa de futebol, como o balneário, a exigência do treino, as concentrações, as viagens, o convívio com os colegas/amigos, a adrenalina do jogo, a competição, a alegria das vitórias, entre outras.
“Doce”, por sentir que saio ainda em perfeitas condições físicas, pois não acabei, felizmente, devido a lesão; pelo dever cumprido; pela minha maneira de estar, positiva e séria no futebol; por tentar ser sempre um exemplo e referência para os mais novos.
Na atitude dos colegas e adversários ao criarem aquela ala, senti um reconhecimento por aquilo que dei e fui para o futebol, não só pelo aspecto técnico mas também pelo aspecto humano.
Foi uma maneira engraçada de me despedir, já que no ano passado não tinha tido essa oportunidade de despedida em pleno jogo e a fazer o que mais gosto.
“Este ciclo infelizmente já acabou”
Em Novembro passado, quando regressou após ter anunciado que terminara a carreira 5 meses antes, disse que “a consciência dizia que não, mas a vontade de jogar dizia que sim…”
E agora o que diz a consciência?
A consciência continua a dizer que não, apesar de sentir que ainda tenho condições para jogar mais um ano a este nível. No entanto, tenho de perceber que a vida não é só futebol e que este ciclo desportivo, a este nível, infelizmente já acabou. É verdade que é por opção, mas tive de perceber que agora tenho mais deveres e responsabilidades noutros “campos”.
Um dos motivos do convite dos dirigentes do União Micaelense para regressar foi de ajudar numa equipa jovem. Deixou a mensagem em Novembro para que os mais novos “vivessem intensamente esse período com alegria, prazer, compromisso, ambição e respeito pelo que fazem, que é jogar futebol.”
Cumpriram ou nem por isso?
A mensagem que deixei foi para todos os jovens jogadores e não especificamente para os do União Micaelense.
Mas em relação aos do União, é uma análise e uma introspecção que cada um terá de fazer. Penso que a maioria cumpriu. Outros, quiçá, daqui a uns anos vão perceber que o tempo não volta para trás e que desperdiçaram a oportunidade e o prazer de jogarem futebol neste grande clube.
- Sente que deu uma contribuição positiva à equipa no âmbito desportivo e como mais velho perante alguns jovens?Eu penso que sim. O meu regresso só fazia sentido se fosse para ajudar. Eu fui apenas mais um para ajudar que, juntamente com os outros, uns mais novos e outros já na “meia-idade”, tiveram um papel fundamental para que conseguíssemos atingir o grande objectivo que era a manutenção. Por isso o objectivo foi cumprido.
Quantos jogos fez e quantos golos marcou?Já comecei tarde esta época, mas penso que a minha prestação foi positiva. Dos 10 jogos da 1.ª fase, joguei 5 a titular, 4 entrei como suplente utilizado e 1 fui suplente não utilizado.
Na 2.ª fase, dos 7 jogos em que pude estar presente, 5 joguei a titular, 1 fui suplente utilizado e 1 não utilizado.
Ao todo fiz 2 golos. Parece-me pouco para um ponta de lança, que foi a minha posição, mas também tenho a consciência que num jogo há o “trabalho invisível” que contribui igualmente para os bons resultados da equipa. O mais importante é a equipa ganhar, independentemente de quem marca.
“Qualidade do jogo é mediana”
- Acabou onde começou há 21 anos, numa série só com clubes dos Açores. Com que opinião ficou do nível deste Campeonato dos Açores?Comecei até na antiga 3.ª divisão, série E, mas acabei onde havia começado. Antes era a série Açores da 3.ª divisão nacional e agora o Campeonato de Futebol dos Açores. Penso que este ano o campeonato foi equilibrado, mas a qualidade do jogo foi mediana. A equipa vencedora, o Sporting Clube Guadalupe, a quem felicito, ganhou por mérito, pois foi a mais consistente ao longo do campeonato.
Quanto ao nível deste campeonato, equivale à realidade atual do futebol regional. É um campeonato onde o futebol praticado não é muito bem jogado por vezes, não é muito exigente, nem muito forte como há anos. No entanto, é bom para que jovens jogadores possam aparecer e para que outros, mais velhos, mas em boas condições, possam jogar, situação que noutras alturas não seria de todo possível de acontecer.
- A carreira do União ficou aquém das expectativas ao não se ter qualificado para o grupo dos primeiros?O objectivo principal foi atingido, que passava pela manutenção. Agora, pelo plantel que existia quando regressei, pela qualidade dos jogadores e pela qualidade dos treinos que fazíamos, podíamos claramente ter garantido, logo na primeira fase, a manutenção. 
“Treinador inteligente e humilde”
- O treinador José Armando Sá tem métodos diferentes de treino, especialmente no foro psíquico dos atletas. Ficou surpreendido?O mister José Armando foi muito inteligente e humilde como conduziu o grupo até ao final da época. Para qualquer treinador que entre a meio de uma época não é fácil. Tem de se identificar com os jogadores, com o próprio clube e com um grupo que estava com algumas carências, em virtude de algumas saídas de atletas e de haver uma ou outra lesão.
 Neste cenário, o trabalho dele incidiu muito na moralização e em dar confiança aqueles que queriam levar o clube a concretizar o grande objetivo. Foi realmente esse caráter que ele incutiu, juntamente com um grupo unido que do pouco fez muito, culminando no primeiro lugar do grupo da manutenção.
- Quental, o treinador, está adiado?Primeiro preciso de ter o curso, mas de momento não faz parte dos meus objectivos, até porque a disponibilidade não será muita de momento. Mais facilmente irei regressar aos jogos dos veteranos, com menos exigência horária, e à prática de outras actividades físicas.
Escrito por João Patrício /CA/MN

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