domingo, 19 de março de 2017

Entrevista com José Manuel Cabral o ‘’Zé Micaelense’’

Entrevista com o ‘’Zé Micaelense’’
“Antes de terminar a carreira quero correr com a camisola do Micaelense”
Apresentar José Manuel Cabral, atleta veterano da ilha de S. Miguel, pouco diz a quem nos ler. Mas se falarmos do Zé Micaelense, já muitos o reconhecem e o identificam. Mesmos os mais novos.
E por quê o apelido de Zé Micaelense:
“Vivia no Porto Formoso e com 12 anos de idade vim para Ponta Delgada. Meu pai era serralheiro e fui para aquela arte. Mas nunca consegui ser um bom executante. Meu pai morreu e fiquei somente com a minha mãe, falecida recentemente. Não tenho irmãos. Então surgiu a oportunidade de ser roupeiro do Micaelense Futebol Clube. Lá estive 45 anos como responsável pelos equipamentos das equipas de seniores e de reservas. Toda a gente me chamava de Zé Micaelense e ainda hoje perdura, apesar de alguns mais jovens pensarem que é o meu nome próprio”.
Quando o Micaelense encerrou a actividade “o que foi uma pena grande, porque era um clube do centro de Ponta Delgada, com muitos adeptos”, diz, José Cabral ficou sem emprego e passou por alguns momentos difíceis.
“Estive cerca de 6 meses a viver na rua alguns anos depois de ter ficado desempregado. Andava pela Matriz. Foram tempos complicados. Até que intercederam para vir para o Instituto Margarida de Chaves, onde me encontro”.
José Cabral não esquece os momentos áureos que passou como roupeiro, recordando com entusiasmo os jogos dos oitavos de final da Taça de Portugal com o Sporting de Braga, em Maio de 1965.
“Tínhamos grandes jogadores, como o Americano, Noá, Abel, Abelha, Jacinto, Marques, Fernandinho e outros, pois só assim é que perdemos em Braga, por 2-1, e em Ponta Delgada, por 1-0”.
O Micaelense e o Belenenses são os clubes de José Cabral, que deixou de ir assistir aos jogos de futebol porque “enervava-me com algumas decisões dos árbitros em jogos do Santa Clara” passando a “falar muito alto” e achando que não valia a pena continuar.
Com 70 anos de idade, feitos a 5 de Fevereiro, José Manuel Cabral tem na corrida a grande paixão. Continua a fazê-lo ao ponto de na Corrida de S. Silvestre deste ano participar na 50ª seguida.
“NÃO FALHEI UMA S. SILVESTRE”
“Estive numa das primeiras Corridas de S. Silvestre e daí até à de Dezembro último não falhei uma, entrando em 49 seguidas. Fiz parte de uma equipa com o Melinho e o Nené Carreiro, representando o Micaelense”, recordou.
“Espero estar à partida da minha 50ª corrida seguida, um feito que mais nenhum atleta alcançou”, disse com regozijo.
Quando o Micaelense terminou, Zé esteve ligado como atleta ao União Sportiva, ao Clube de Atletismo da Lagoa (CALAG), ao Operário e desde há 3 anos ao Santa Clara, “que contribui com material”.
“O meu desejo é de um dia poder entrar numa corrida envergando a camisola do Micaelense antes de terminar a carreira”, referiu com entusiasmo.
“As primeiras corridas eram diferentes, com mais entusiasmo das pessoas porque os clubes de Ponta Delgada estavam representados”,  lembra José Cabral, que discorda do percurso actual, “principalmente com a passagem pelas Portas do Mar”, alertando para a “necessidade de os atletas passarem mais vezes pela avenida, onde está sempre mais gente”, mas considera que a prova “tem melhorado”.
Uma das criticas que faz à Associação de Atletismo de S. Miguel é a retirada de incentivos financeiros aos atletas locais, que “só têm direito a um jantar após a prova, o que nem sempre aconteceu e só foi alterado porque o Carlos Melo falou um dia sobre o boicote dos corredores micaelenses se não fossem ao jantar, que era apenas para os atletas convidados”.
Com exames médicos antes de cada época “feitos pelo dr. Carlos Estrela”, José Cabral já não faz os treinos tão intensos como quando ia à Ribeira Grande e voltava, partindo pelas 6h30 da manhã, mas “treino 4 vezes por semana na pista das Laranjeiras”.
Outra das boas recordações é a participação em Lisboa numa corrida “com tanta gente”, graças ao “empenho do Néné Carreiro”, por quem José Cabral tem “uma estima especial pelo apoio que me deu”, considerando-o como “o melhor fundista de sempre dos Açores”.
José Manuel Cabral diz “preferir a estrada à pista”, e agradece os incentivos que recebe das pessoas quando passa pelas ruas: “Força Zé” ou “homem tão velho e ainda corre”, além de “fica à frente de rapazes”.
Ficou admirado “quando o António Leitão se me dirigiu a incentivar-me a continuar”, não esquecendo “o apoio do professor Fernando Melo, até com material”, classificando-o de “um belo homem”.
“NÃO ME LEMBRO DE TER DESISTIDO”
“Não me lembro de ter desistido de uma corrida”, rematou José Cabral na conversa que mantivemos, salientando o título regional de estrada em veteranos há alguns anos e surpreendeu quando avançou que se prepara “para participar na Meia Maratona”, afirmando preferir o percurso Ribeira Grande/Ponta Delgada do que o contrário, “porque tem mais subidas”.
“Enquanto tiver forças não vou parar”, diz o popular Zé Micaelense, que quis relatar um acontecimento marcante vivido no final do ano passado.
“Fui convidado para um jantar na zona do Pópulo e no final uma senhora ofereceu-me umas sapatilhas Adidas, o que nunca tive, melhorando o andamento e corro mais tranquilo nas provas que já usei, porque calçava umas sapatas mal amanhadas”, finalizou José Manuel Cabral.
CA/JS/MN

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