segunda-feira, 21 de abril de 2014

Treinador Manuel Machado despontou a verdade

Grande verdade nua e crua
A lição de ilhéu de Manuel Machado
Manuel Machado, treinador português, tem um discurso que mistura a ironia com a seriedade. Acaba por ter piada. Se estivesse num clube com outra grandeza as palavras que profere faziam manchetes e percorriam o Mundo. É um homem da palavra certa na altura certa. Deixa uma imagem de ser um treinador bem-disposto, quando alguns jogadores que com ele trabalharam se queixam de não ser muito comunicativo.
Na Madeira cumpre o quinto ano, intercalado, no Nacional. Já possui uma vivência insular que o permite ter conhecimentos aprofundados sobre o que é viver em ilhas, treinar uma equipa ilhéu, perceber o sentimento de quem vive rodeado pelo mar e está confinado a uns quilómetros.
Manuel Machado tem ficado irritado com o crescente apoio dos adeptos madeirenses quando as equipas do Nacional e do Marítimo defrontam Benfica, Sporting ou F.C. Porto na ilha Madeira. E com razão.
Após o jogo com o Benfica e injuriado pelos adeptos benfiquistas residentes na ilha, Manuel Machado disse “desconhecer que existiam muitos lisboetas a residirem na Madeira”, numa alusão à maioria de apoiantes do clube da Luz.
Na semana que passou, antes do jogo com o Marítimo, no “derby” madeirense (que venceu por 2-0), o “sponsor” BANIF promoveu uma acção de promoção do encontro no Museu da Imprensa, em Câmara de Lobos, sendo a assistência composta maioritariamente por crianças.
Manuel Machado, não usando a linguagem retórica, nem o “machadêz”, dirigiu-se aos futuros adultos com palavras que deve- riam fazer reflectir e envergonhar todos aqueles que apregoam serem grandes defensores e entusiastas das suas cidades, vilas, aldeias ou ilhas.
“...ouvir dizer, aqui, entre os mais jovens, que são do Sporting e do Marítimo, do Benfica e do Nacional é trocar as coisas. Devem, é dizer que são do Nacional e do Benfica, do Marítimo e do Sporting, do Nacional e do Sporting e do Marítimo e do Benfica”.
Reforçando a ideia transmitiu: “Temos de gostar do que é nosso, em primeiro lu- gar, e o que é nosso são, de facto, estes dois grandes clubes. Isso parece-me ser o mais importante. Gostem do que é vosso, dos vossos pais, da vossa terra, da vossa cultura e do vosso desporto”.
Realmente, quem é madeirense ou açoriano, aveirense ou olhanense, e apoia os clubes de fora contra os da sua região, não pode gostar de si próprios.
Muitos continentais têm grande afeição e dedicam grande apoio aos clubes das zonas para onde passaram a residir. Conheço muitos casos na ilha de S. Miguel. É uma vergonha para os nativos.
Causa-me grande impressão e inquietação quando vejo, por este Portugal fora, as pessoas a apoiarem Benfica, Sporting ou F.C.Porto, ficando satisfeitas com as derrotas dos emblemas da sua terra.
Esta troca de posições, que não se vê em outro país da Europa, só em possível pela tripolarização da força do futebol e das outras modalidades centradas nos três clubes que são falados, vistos e lidos diariamente até à exaustão. Não admira que as crianças se inclinem para aqueles clubes. É um autêntico anúncio consumista gratuito, que ganha cada vez mais força e apoiantes, apesar de, hoje, com a partilha imediata da informação, existirem muitas crianças, jovens e adultos a
darem preferência aos clubes mais cotados da Europa.
S. Miguel não difere de outras cidades continentais. Há pessoas que se dizem açorianas de gema, que falam e discutem a sua terra com denôdo, mas não apoiam presencialmente as nossas equipas nem outras acções de qualquer âmbito. Conheço muitos...
O sentimento de pretenderem ver o Santa Clara na 1ª Liga, sem darem o míni- mo contributo no apoio, no campo, para que tal se concretize, só para verem Benfica, Sporting e F.C.Porto em Ponta Delgada, é de um egoísmo atroz, de uma insensibilidade. Esta gente não merece o esforço, a dedicação, a depauperação dos seus rendimentos e dos seus imóveis por parte dos dirigentes que lutam para darem vida a estes clubes, que abrem as portas aos fi lhos.
Grande lição de ilhéu de Manuel Machado. Grande bolacha sem mão naqueles que são acérrimos defensores das suas terras, mas ignoram os seus símbolos.
In CA 18Abr2014

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